quarta-feira, 18 de junho de 2008

CARTA ABERTA AO JOGADOR RONALDO

CARTA ABERTA AO JOGADOR RONALDO
Caro Ronaldo Luís Nazário de Lima:Começo por lhe pedir desculpas por me dirigir a você publicamente, mas, anônimo admirador do seu extraordinário talento, não tenho como chegar a você. Resta-me este recurso, na expectativa que você me leia.Escrevo-lhe por amizade, porque há amizades anônimas, sempre sinceras porque incorrespondidas por definição, uma vez que o alvo da amizade sequer conhece esse seu amigo e admirador. Há amizades conhecidas sinceras e, como você deve saber mais que eu, há amizades conhecidas oportunistas. Não sei se você viu a entrevista do Denilson, em que ele disse que tinha um monte de amigos, mas, depois que sua carreira enfrentou dificuldades, não sobraram dez. E eu acho que ele foi otimista. Também não sei se assistiu à entrevista do Jardel, em que ele fala do mal que lhe fizeram algumas de suas "amizades" (e as aspas são por minha conta e risco).Escrevo-lhe, então, repito, por amizade. Acompanho -- e que brasileiro não o acompanha? -- sua carreira, que é um fenômeno mundial. Estive na China há alguns poucos anos e o pessoal lá não sabia pronunciar o nome do Brasil, mas o seu (com L no lugar do R, é verdade), todos sabiam. E quando pronunciavam seu nome, suas pernas se moviam como se quisessem imitar você. Quantos grandes jogadores não têm surgido e ainda vão surgir inspirados na sua habilidade com a bola.Vivemos num mundo, Ronaldo, bastante estranho. Você é cercado, eu também o sou, pela idéia que cada um de nós tem o direito de ser feliz, o que, acho, está correto. O problema é que, junto vem outra idéia: vale tudo na conquista desta felicidade, confundida apenas com prazer. Ser feliz, então, é se sentir bem, e se alguma coisa não vai bem, podemos fazer o que for possível, para que as coisas estejam bem. Não há limites: o prazer é o limite. Você não acha estranha esta idéia, se o nosso próprio corpo tem limites? Por que não haveria de ter limite o prazer? Acontece que, embalados por essa ideologia, vamos estendendo este limite, até sermos parados por algum acontecimento dramático. Precisamos compreender que a felicidade inclui o prazer, mas não se restringe a ela.Vivemos num mundo estranho mesmo, que nos diz que precisamos ter sucesso sempre, que temos que bater sempre as metas, que precisamos acumular mais, seja dinheiro, poder ou honra. Não dá para termos sucesso sempre. Sucesso é competição e, em toda a competição, há vitoriosos, no que você é magnífico, e há perdedores. Logo, não há como haver apenas quem vence. Precisamos resistir a essa ideologia do sucesso que, se nos faz vencedores, também nos derrota, quando não conseguimos alcançar padrões que nos impõem. Quando alcançamos muito sucesso, mesmo que com muito esforço, como é o seu caso, Ronaldo, e ele se ameaçado, somos cobrados, cobramo-nos a nós mesmos, e nosso equilíbrio fica manco.Vivemos num mundo, e nisso não há novidade (o mundo sempre foi assim desde que o mundo é mundo), que não suporta o fato de o sofrimento é uma realidade que pode acometer a todos. Toda vez que eu ou você experimentamos a dor, seja ela física ou emocional, certamente nos perguntamos: por que? por que comigo? Cada um de nós, e eu me incluo nesse grupo de tolos, tende a achar que é especial, no sentido de que coisas ruins não nos podem acontecer. Essa é uma tentativa de prolongar aquele tempo gostoso, totalmente protegido, que passávamos nos ventres que se abriram para nos dar à luz. Viver, mesmo que fora desta automática proteção, também é muito bom, e isso inclui receber sol e chuva, caminhar na luz e na sombra, rodar por avenidas e por becos, correr ou manquejar, voar ou e se arrastar.Vivemos num mundo, e nisto também não há novidade, em que os bons heróis são os transgressores, que não vivem segundo as regras dos outros, mas as suas próprias. Concorda comigo que isto não passa de uma bobagem? Sempre sigamos regras. Mesmo quando achamos que estamos sendo autênticos, estamos seguindo alguém. Não somos tão criativos assim. Quando decido que vou transgredir, só mudo de lado, mas sigo um lado. Há um ideário, primeiramente entre artistas e agora entre esportistas, segundo o qual as pessoas devem ser julgadas por suas obras, não por suas vidas. Só que isto não é verdade, nem para a obra nem para a vida, porque, quando uma vida é destruída a obra acaba. Quantos gols (e não é o gol que importa?) deixaram de ser marcados por noites não dormidas? Quantas copas foram perdidas porque alguns jogadores transgrediram as regras postas para o bem comum? Tenho ouvido muitos elogios à transgressão pela transgressão. Fiquei chocado quando o colunista José Geraldo Couto, na Folha de São Paulo (COUTO, José Geraldo. Jesus, amor etc. Disponível em , escreveu que prefere o exemplo do jogador Adriano, por exemplo, do que o de Kaká para a juventude. Segundo esta lógica, quem se destrói, ao ponto de perder o título de "imperador", é um exemplo; quem mantém se mantém no topo mas é careta não é exemplo. Aí, botafoguense (ninguém é perfeito!), eu me lembrei do inultrapassado Garrincha, com sua carreira abreviada por suas próprias transgressões e pelas transgressões dos outros (e eu me refiro às infiltrações no joelho). Ele, e tantos outros, foram vítimas dramáticas deste ideário, que é bom só para quem os promove, nunca para quem os vive. Esse ideário tritura quem os vive, para diversão de quem os promove. Quantos anos nos roubaram da genialidade do camisa 7 do Botafogo? E eu ainda queria ver Cazuza ou Renato Russo compondo novas canções e não ter que ficar fruindo as velhas. Quem ganhou com o caminho que lhes abreviou a vida e a obra? Vivemos, portanto, num mundo em que muitos rejeitam a idéia de que o certo é o certo e o errado é o errado. No entanto, um sinal vermelho não é um sinal verde; duzentos quilômetros por hora não são cento e vinte. Esperar o sinal se abrir não é notícia, mas não produz morte. Respeitar os limites de velocidade pode não ser uma aventura, mas reduz o número de vidas e carreiras encurtadas.E, aqui, parece que vou me contradizer, mas vou dizer que todos nós fomos criados para a felicidade. E fomos também criados com o fantástico dom da liberdade. Nossa liberdade bagunçou nossa felicidade. Ser feliz é ser livre. E Deus nos deu um conjunto de regras, não para Ele ser feliz mas para que nós fôssemos felizes. Confundimos as bolas e começamos a jogar com bolas fora das regras em campos com gramas ruins. O resultado você conhece.Nós somos imperfeitos. E aqui vou falar coisas que você também certamente já ouviu e vou me servir das minhas observações e da leitura da Bíblia, que você deve ter em casa, porque deve ter ganho várias. Minha imperfeição é muito antigo. Eu me lembro que sou imperfeito desde quando, bem novinho, por prazer de transgedir cortei escondido dos meus pais o cabelo de minha irmã ou quando a irritava dizendo que meu bife era maior que o dela. Eu me lembro que sou imperfeito desde quando, durante o intervalo da aula, punha o pézinho para que meu colega tropeçasse para que muitos ríssemos. Como eu fui capaz de fazer isto! Mas eu fiz uma bobagem desta e muitas outras até hoje.Como aprendemos na Bíblia, nos demos e damos as costas para Deus, achando que sabemos o que é melhor para nós. No fundo, achamos que nos conhecemos melhor que o nosso criador. No fundo, achamos que Ele está muito distante para ver as oportunidades que temos. No fundo, achamos que somos especialistas em viver. De costas para Deus, como um atacante olhando para o gol da sua própria equipe, pomos todos os nossos esforços no lado errado do campo.De costas para Deus, não aceitamos ser contrariados por pessoas ou por situações. Então, guerreamos. Queremos o que achamos que é nosso, mesmo que não seja. Então, mentimos, trapaceamos, enganamos, fingimos, manipulamos, roubamos, matamos, usamos o dinheiro para comprar o que não é comprável. Amamos o outro se for bom para nós. Esta é a história do mundo em que vivemos e que nós construímos, embora achemos que sejam os outros que o fazem.Vou usar a palavra, horrorizada, abominada, interdita: nós somos pecadores. A notícia não é boa, mas é melhor uma notícia, mesmo que ruim, do que notícia nenhuma. A notícia não é boa mas nos ajuda a entender porque as coisas são como são.Lá no fundo os homens sabem que são pecadores e alguns até gostam de o ser, até é claro, esse pecado fizer deles suas próprias vítimas.Lá no fundo também os homens acham que podem se livrar dos seus pecados. Sempre achamos -- o que é muito bom -- que podemos nos superar. Muitos esforços são feitos. Um deles é aprender que ninguém precisa se preocupar por ser pecador; pode haver pecado, mas não há culpa, pensam alguns. São as circunstâncias ou a condição humana, argumentam outros.Eu falo por mim: eu não consigo me livrar dos meus pecados. Consegui um pequeno avanço: sei que embora o pecado pareça bom, ele não é bom. Gosto de chocolate, mas preciso moderar no seu consumo, mesmo não sendo atleta. Há muitas coisas interessantes para eu fazer e que não são pecado. O que me fascina mais é aquilo que não devo. É por isto que não consigo me livrar dos meus pecados, porque a primeira coisa que faço é dizer a mim mesmo que o pecado não é pecado. É como se eu gostasse de ser enganado por mim mesmo ou pelos outros.Eu sei de tudo isto, mas não consigo não pecar. E isto é duro. É como se minha natureza pendesse para o lado do pecado e levasse para a sua prática. Não é para ficar desesperado, Ronaldo?Então, volto à Bíblia e leio que Deus, que me criou, continua me amando, apesar de eu lhe dar as costas. Só Deus pode amar assim. A gente ama quem não gosta da gente, mas depois desiste e cai em outros braços... Deus persiste. Cito-lhe um trecho de um entrevista do Bono, do U2. Disse ele: "É espantosa a idéia que o Deus que criou o universo procura por companhia. Meu entendimento da Bíblia é simplificado pela pessoa de Cristo. Cristo ensina que Deus é amor. E o que isto significa? Isto me leva ao estudo da vida de Cristo. (...) Sei o que Deus é. Deus é amor e o melhor que eu faço é me deixar ser transformado por este amor e agir neste amor. Esta é a minha religião. Quando as coisas se complicam para mim, trato logo de viver este amor, mas sei que não é fácil". (Bono: Grace over Karma. Disponível em )Retorno à Bíblia e leio a história da crucificação de Jesus, uma história difícil de ser engolida. Como alguém pode me amar assim ao ponto de entregar o seu próprio filho para morrer em meu lugar, de modo que eu pudesse olhar Deus de frente outra vez! Sim, eu lhe dei as costas, mas Ele se manteve diante de mim. O pecado nos separava, mas Ele derrubou o abismo que nos separava.A história da crucificação de Jesus Cristo há tantos séculos é a história do amor de Deus para comigo e eu posso universalizar este amor, para alcançar você também, mas falo da minha experiência. Por amor, Deus quer atacantes jogando para a meta que deve vencer. E o que Ele quer em troca? Apenas nossa amizade. Deus tem fome de nossa amizade, assim como devemos ter fome de sua amizade. Seu colo está aquecido para nos receber, mesmo quando escapamos por aí.Quando reconheço que sou pecador e admito que não posso me livrar por mim mesmo do meu pecado, Deus fica livre para mostrar na prática o seu amor para comigo e me livrar do meu pecado, para que eu possa ser feliz. Quando peço perdão pelo meu pecado, sobretudo o pecado primeiro de dar as costas para Deus, eu sou perdoado. O peso da culpa -- que existe e é real, mesmo que muitos digam o contrário -- é tirado de minhas costas. Se a existência do pecado é uma péssima notícia, a possibilidade do perdão tira toda a sua força. Não há felicidade fora do amor de Deus para conosco. E Deus busca a nossa companhia, como disse o Bono.Quero, Ronaldo, que você seja feliz, porque é o que Deus quer para você.Quero que você aceite que é amado por Deus apesar dos seus pecados. É assim que a Bíblia diz que devemos nos sentir. É assim que me sinto, apesar de pecador: amado.Quero que você deseje ser guiado por Deus, não por seus instintos (e como eles são fortes em você e em mim!), não por seus desejos (e como eles são poderosos em você e em mim!), não pela ideologia do prazer ou do sucesso (como ela é sedutora para você e para mim!)Quero, se eu voltar à China, ver pessoas que admiram o seu futebol. Quero continuar apreciando o seu futebol por bons anos ainda, mesmo que não seja no Botafogo.Quero que você continue sendo um exemplo de vida e de futebol para tantas pessoas no Brasil e no mundo. Precisamos de bons exemplos.Ouso dizer que Deus quer o mesmo para você e que está com os abraços abertos para receber você e caminhar com você numa nova arrancada, rumo aos gols. No entanto, se os limites do corpo não puderem ser vencidos, o amor dEle para com você continuará o mesmo, porque Deus não se deixa contaminar pela doença da ideologia do sucesso. Ele também gosta de futebol, mas ama sobretudo o atleta, como quem deseja estabelecer um relacionamento de amigos.
Com admiração,
ISRAEL BELO DE AZEVEDO

O valor estava na palavra

A prisão do casal Estevam e Sônia Hernandez, líderes fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, trouxe para nós, os protestantes, um bom momento e motivo para reflexão. Muitos têm falado sobre o escândalo e abordado o episódio com os vieses mais curiosos, embora sempre sem muito oferecerem, além da ferrenha crítica de todos os dias.Alguns críticos focam suas luzes em ilustres membros daquela igreja, mostrando que, apesar de tudo, até um milionário jogador da seleção brasileira de futebol está jejuando e orando pelo “apóstolo” e pela “bispa” (as aspas são de propósito, já que apóstolo não existe mais, uma vez que essa nomenclatura é para aqueles que tiveram contato direto com Jesus – Paulo aparece como “abortivo” e é outro caso – e “bispa” é simplesmente um crasso erro de português, já que o feminino de bispo é episcopisa).O foco de outros, como o jornalista José Simão, da Folha de São Paulo, é o deboche. Ele zomba do evangelho dizendo que “agora, das duas paradas mais faladas do Brasil, a parada gay é a mais confiável, derrubando a marcha para Jesus da “Igreja Evangélica Enriquecer em Cristo””.O foco que pretendo apresentar está na Palavra. A Bíblia que, levada pelo casal, continha em seu interior uma boa quantidade dos dólares não declarados pelos líderes da Renascer. Esse detalhe curioso me fez lembrar de um tempo em que eu guardava o salário dentro de meus livros e dizia de peito cheio – e metido a intelectual – “meu tesouro está nos livros”. E estava mesmo. Só que literalmente.O tesouro dos líderes da Renascer também estava no Livro. Mas, percebe-se, o tesouro deixou de ser o próprio Livro faz tempo.É difícil para nós, do mesmo movimento chamado evangélico, recebermos todas as críticas das pessoas que não diferenciam os segmentos religiosos e sempre acabam dizendo que “crente é tudo safado” e que “pastor é tudo ladrão”. Assim, cabe aqui dizer que não podemos compactuar com o discurso de uma igreja que culpa o diabo pela “perseguição” de seus “ungidos”, sendo que esses mesmos “ungidos” têm um patrimônio líquido de 18 milhões de reais, haras para cavalos de raça e mansões na Flórida, mesmo que tendo uma dívida que, só de aluguel de salões para cultos, está em torno de 12 milhões de reais.Quem está de pé, cuide para que não caia, diz a Bíblia. Portanto, mais do que criticar, essa é uma convocação do povo de Deus para orarmos pelos Hernandez. Orar para que ao abrirem a Palavra da próxima vez – sobretudo se for na presença de desconhecidos, como aqueles policiais americanos – eles encontrem um tesouro perdido. E não precisa ser em dólar, visto que, em se tratando de Bíblia, só as letrinhas bastam.
liberdade, beleza e Graça...
Cleinton Gael

"De Renan Ca(na)lheiros e Joaquim Hor(roríz)vel"

A Bíblia traz a história de uma mulher pega em adultério. O desfecho de tal episódio é curiosíssimo; Jesus, ao ter a palavra, diz aos homens, já prontos para apedrejar: “Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra”. Conta a Bíblia que, um a um, foram saindo todos os acusadores e a mulher ficou só, à espera da sentença do mestre. Jesus a dispensou em paz, aconselhando-a a não pecar mais, e dizendo, ainda, que, se os outros não a estavam acusando mais, tampouco ele o faria.Esse texto bíblico me veio à mente nesses dias em que o Senado Federal está em polvorosa com o seu presidente chafurdado em denúncias de corrupção. O que mais chamou a atenção nas reportagens a respeito foram algumas frases antológicas de Renan Calheiros: “Do Senado eu não arredo o pé”; “Renúncia é uma palavra que não existe no meu dicionário”.Só essas duas frases já seriam suficientes para que se conseguisse enxergar o espírito de coronelismo que vigora desde sempre na política nacional brasileira. Mas, para piorar, e também para enriquecer o debate, eis que Calheiros - com os olhos fitos nos colegas de Congresso Nacional - diz: “Minhas vísceras estão sendo expostas aqui. Mas eu não permitirei que as vísceras dos nobres senadores e do Senado Federal dessa República sejam expostas!”.Embora esse pareça um gesto heróico de um mártir à beira da morte, por trás das palavras do senador as entrelinhas falam alto: “Estou aqui, acusado de adulterar na minha função nessa República, mas aquele dentre vocês que não tiver pecado, que me atire a primeira pedra”. Tal como no episódio bíblico, um a um, foram saindo todos os acusadores de Renan Calheiros e, logo no dia seguinte, os jornais estampavam manchetes dizendo que os parlamentares não encontraram razões fortes o suficiente para pedirem a renúncia do presidente do Senado. E, se não falaram “não peques mais”, ao menos disseram “vá, ou melhor, fique em paz”. Todos parecem, portanto, ter muitos “pecados”.Outro senador, Joaquim Roriz, que já renunciou, disse que ao negociar 2,2 milhões em um telefonema com outro elemento “do bando”, o fez “apenas comprando um bezerro”. Foi descoberto, portanto, o paradeiro do bezerro de ouro, adorado como deus, na história do êxodo do povo de Israel, também encontrada na Bíblia. Os senadores, nesses tempos, me parecem “bastante bíblicos”.Renan Calheiros é acusado de pagar pensão alimentícia - para sua filha com a ex-amante - e contas pessoais com dinheiro de uma empreiteira que presta serviços para o governo, o que é ilegal. É também acusado de utilizar notas frias para comprovar sua receita de venda de gado em Alagoas, o que também é ilegal. É ainda acusado de enriquecimento ilícito - em 1978 ele declarou suas posses: na época só possuía um fusca. Já nos dias de hoje...O P-SOL promove uma campanha em nível nacional chamada “Fora Renan!”, e o senador, apesar de dizer “estão querendo assassinar a minha honra”, não permite que suas contas sejam vasculhadas para que as provas de todas as acusações sejam ou não encontradas.Portanto, ou a sociedade civil faz um grande barulho para que as acusações sejam apuradas com rigor e ética, e impõe a palavra renúncia ao dicionário do presidente do Senado, ou no vocabulário de toda a nação começará a ganhar espaço uma nova palavra: a corrupta, corruptora e infeliz “renância”.
liberdade, beleza e Graça...
Cleinton Gael

"O Haiti não é aqui, mas o Pará é"

A situação no Haiti é, como se sabe há tempos, de fome, miséria e guerras internas constantes. O exército brasileiro, elogiado por toda a comunidade internacional, ajuda no processo de pacificação daquele país.Ao pensar naquele pedaço de chão, também feito por Deus, um poeta da música brasileira comparou os dois povos, dizendo: "reze pelo Haiti, chore pelo Haiti; o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui". Perturbadora e paradoxal, essa sentença.Pensei, enquanto teólogo, sociólogo e pastor, e me aliviei deveras pelo fato de o Haiti não ser mesmo aqui. Porém, tive de me machucar muito mais fortemente do que se aqui fosse mesmo aquele país. Percebi que o Haiti pode até não ser aqui - mesmo com as licenças poéticas que pedem o contrário - mas o Pará, infelizmente, é. E, para dizer a verdade, e à luz dos últimos acontecimentos naquele estado brasileiro, seria melhor que o Haiti fosse aqui.A adolescente L., de 15 anos, acusada de roubo, foi encarcerada numa cela com outros 25 homens durante 20 dias. Foi estuprada, queimada com cigarro, enquanto negou sexo, e teve seus cabelos cortados a facão "para se parecer com homem e não dar muitas chances para perceberem" (que havia uma mulher, ou melhor, uma criança, naquele local de horror). Durante todo esse tempo, a menina não recebeu comida. Se quisesse comer, tinha de se tornar escrava sexual dos detentos. Por que não recebia comida e quem são os responsáveis por isso são questões que lá não encontram respostas, embora cá possam ser facilmente respondidas.Pela lei, L. não poderia ser presa, não poderia ser colocada em uma cela como aquela e não poderia deixar de ter alimento, mesmo que fosse em uma cela outra.O caso poderia, num país sério, gerar prisão perpétua para os responsáveis, mas no Pará (e no Brasil como um todo, pois aconteceu o mesmo já em pelo menos outros 5 estados, segundo um relatório internacional pelos direitos da mulher), o fato não gerou mais do que a triste confirmação: "não é a primeira vez que acontece. Isso sempre aconteceu aqui na região" (palavras de testemunhas e da própria governadora do estado, Ana Carepa, do PT).Fico, portanto, com a frase atribuída ao General De Gaulle, que diz que "o Brasil não é um país sério", pois sei que nada de relevante irá acontecer de fato à governadora, aos responsáveis pela prisão (embora estejam já naquela "afastadinha temporária") e aos "coronéis" da região.A governadora prometeu, "energicamente", apurar o caso e se disse "envergonhada".A pergunta que se faz é: Por que mesmo com quase todos os moradores da cidade sabendo da prisão da menina, não se ouviu o grito de denúncia da população? Segundo palavras ouvidas pela Folha de S. Paulo: "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", disse a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"A delegada a que se refere a mulher é Flávia Verônica Pereira, responsável pela prisão em flagrante de L. A juíza é Clarice Maria de Andrade. A delegada já está "afastada" e a juíza está "sob investigação", ainda! Meu Deus, isso não pode dar em nada!Pensei nesse caso essa semana e cogitei até a possibilidade de dar uma nova chance ao Jáder Barbalho. Afinal, perto de tudo isso até que ele me parecia um "santo paraense".Mas não, não vou terminar o texto assim. O Jáder é a ratificação disso tudo, pois "manda no Pará". É canalha também. Hoje não tem perdão; não quero que aquele estado seja aqui. O Pará não é aqui. Ou é, mas como um protótipo do inferno. Com esse Pará eu quero Parar.Perguntaram-me dia desses se, sendo um teólogo liberal, acredito no inferno. Sim, acredito. Vivo pertinho dele até. Quanto ao diabo, está mais distante, pois desconfio que seja o Bush. Tenho quase certeza. O demônio-mór, acho que é o Chaves (o venezuelano, não o outro), embora ele e o George W finjam brigar. Já o ministro das relações exteriores, é o Jáder. Só pode ser. Quanto a mim; eu deveria ter nascido pé de laranja.
liberdade, beleza e Graça...
Cleinton Gael

"Aborto: questão religiosa, jurídica ou de debate público?"

Na semana última, uma pesquisa feita pela parceria UNB/UFRJ revelou um fato que seria, noutros tempos, chamado de estarrecedor: as católicas - já mães, com idade entre 20 e 30 anos e com a vida financeira já estabilizada - são as mulheres que mais praticam abortos.O foco na opção religiosa é proposital, pois há tempos essa temática não consegue justa discussão e flexibilização da parte do Vaticano. Mais difícil parece ser agora, quando a cúria papal está sob a égide do híper-conservador Joseph Ratzinger, o Bento XVI.A discussão acerca da interrupção de uma gestação é uma das mais carentes de um debate aberto. Como se sabe, no Brasil a prática do aborto é crime e manda para a cadeia, sem titubeio, qualquer mulher que ousar "tirar a vida de um inocente indefeso", nas palavras das associações e organizações contrárias à prática aqui discutida.O Vaticano, por sua vez, é taxativo: "o aborto é um pecado gravíssimo e dos mais abomináveis que se pode cometer". Mesmo com palavras tão afirmativamente duras, as católicas abortam.O que se pode concluir disso é que a coerção social, exercida pela religião, enquanto fato social, perde força a cada dia, visto estarmos vivendo a era que o escritor Rubem Amorese chama de "era da individualização e da privatização". Pela tese desse autor, a vida privada passou a falar tão alto que as pessoas, a independer até mesmo de suas opções religiosas, passam a dizer: "A vida é minha e eu faço o que eu quero, dá licença?!".Se a religião não tem mais o poder de mexer com as estruturas e com a cosmovisão católica, radicalmente modificadas, tampouco pode fazê-lo a lei brasileira. Prova disso é que existem pelo menos 3,5 milhões de "criminosas" soltas pelo país. E, para piorar, são mulheres bastante independentes, bem formadas e informadas e detentoras de uma crítica bastante relevante. Além de pagadoras de impostos, claro. Portanto, o debate se faz bastante pertinente.Assim, deixando de lado o viés religioso e a questão forense - compreensivelmente obsoletos para o tratamento do tema aqui proposto -, a discussão que clama por atenção diz respeito ao tipo de política pública - nas áreas da educação e da saúde - que deverá ser implantado para que se trabalhe a temática do aborto com o máximo de vontade política.Penso que, assim como a temática das drogas não-legalizadas, o tema do aborto merece a mortificação da demagogia para que, ouvindo-se o já bem considerável grupo de milhares de mulheres brasileiras "ilegais", se consiga encontrar idéias que valorizem a vida humana em todos os seus momentos - inclusive na gestação -, levando-se em conta também os direitos outros do ser humano. Lembrando que o problema não é mais a morte de adolescentes nas mesas de clínicas e parteiras ilegais. O novo aborto tem se mostrado uma postura bem pensada e escolhida. É necessário, pois, que se descriminalize o ato e se chame as maiores interessadas no tema para o debate.Só a educação e o diálogo aberto e tolerante poderão trazer as respostas que a lei e a religião deixaram de oferecer. Porém, é importantíssimo que se coloque em pauta nesse diálogo as motivações dessas mulheres entrevistadas. É curioso que as justificativas das mesmas estejam sempre ligadas à primeira pessoa; o "eu" aparece o tempo todo: "Abortei porque a criança atrapalharia os meus planos de viagem ao exterior"; "Abortei, pois uma gestação atrapalharia meu sonho de mestrado"; "Abortei, pois percebi que não era o que eu queria"; "Eu achei que não era hora e meu marido concordou". Frases como essas só vêm corroborar a tese de Amorese acerca da privatização e do individualismo, pois o outro não é lembrado em tempo algum. E olha que esse outro pode estar tão próximo que chega a estar dentro! Será que não se pode pensar antes?!É por essas e outras que - e não apenas por ser pastor - em se tratando de aborto, vou continuar dizendo NÃO!
liberdade, beleza e Graça...
Cleinton Gael