domingo, 14 de dezembro de 2008

Do grande brasileiro Frei Betto

*DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL * * Por Frei Betto*

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, daMongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos,recolhidosem paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: asalade espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados,ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviamtomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outrocafé, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?' Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, eperguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula àtarde'.Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir atémaistarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Quetantacoisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina',ecomeçou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula demeditação!' Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmenteequipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresasconsideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, aInteligênciaEmocional. Não adianta ser um superexecutivo se não consegue serelacionarcom as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolaresincluírem aulas de meditação! Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960,seislivrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias deginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com adesproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo,vamos todosmorrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, nãotinhauma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Daespiritualidade? Da ociosidade amorosa? Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-senarealidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudoévirtual. Pode-se fazer sexo virtual - pela internet: não se pegaaids, nãohá envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seuquarto, emBrasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhumapreocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudoévirtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não hácompromissocom o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem,desentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãosvirtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somostambémeticamente virtuais... A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é orefinamento doespírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções - éumproblema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos umpoucomenos cultos. A palavra hoje é 'entretenimento' ; domingo, então, é o dianacionalda imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vailá ese apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa ailusão deque felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar esterefrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar estecarro,você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cededesenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de umanalista.Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dosseuspacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar odireitode apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar odesejo paradentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio évirar odesejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bomserlivre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal,consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mentaltrêsrequisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência deestresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguémvai àEuropa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurarsaber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela temhistória. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo umacatedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso:amaioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedraisestilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é precisovestirroupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensaçãoparadisíaca:não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno,aquelamusiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todasaquelascapelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belassacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus.Sedeve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no chequeespecial,sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai sesentirno inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna,irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer doMcDonald's... Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olharesespantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava dedescansara cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedorescomovocês o assediavam, ele respondia: 'Estou apenas observando quantacoisaexiste de que não preciso para ser feliz.'

Frei Betto

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